CRÍTICAS

Boas ou não, as críticas existem e servem para reflexão.


PLATAFORMA DA DANÇA - 2012 -Teatro Sérgio Cardoso

por Alexandra Itacarambi
O Correio Feminino, novo trabalho coreográfico da Divinadança, se desenvolve num universo com 
flores, vestidos vermelhos e uma máquina de escrever. As mulheres entram em cena uma a uma, 
os cinco corpos femininos formam um único corpo, uma única mulher  – Clarice Lispector (1920-
1977).
A coreografia é construída com o repertório de técnicas da dança moderna e contemporânea, 
principalmente Limon
1
e contato improvisação, com seqüências bastante marcadas e comandas 
pelo tempo musical. Quase nada escapa desta escrita.
A máquina de escrever é referência central para ilustrar a literatura ou o universo de Clarice. Ao pé 
da letra, dali saem trechos de textos declamados em voz baixa para a platéia, que suponho serem 
textos da autora. 
Do fundo do palco, a máquina é trazida para frente, onde fará contraponto com o computador, 
referência dos nossos tempos, da contemporaneidade.
A bailarina digita no computador enquanto dança seu solo, num vai e vem. Vemos a imagem de 
Clarice na telinha, depois uma frase “perder-se também é caminho”.  Não consigo ler a próxima 
frase. Perdi que foi dito.
As mulheres voltam em cena, ora em uníssono, ora em canon (uma após a outra), mas com a 
mesma personalidade, sem traços da complexidade ou contemporaneidade de Clarice. Como diz o 
biógrafo Benjamin Moser “a alma exposta em sua obra é a alma de uma mulher só, mas dentro 
dela encontramos toda a gama da experiência humana”

Ao final, Clarice “assina” a obra. Ou seja, vemos a assinatura de Clarice na tela do computador. Será 
que estamos falando da obra, de toda a obra, de Clarice ou da mulher? Independente da resposta, 
o desafio não é nada fácil.

             
14
CORREIO FEMININO (Grupo Divinadança)
Por Sílvia Geraldi
Clarice Lispector notabilizou-se como escritora de ficção, produzindo inúmeros contos e romances 
que se transformaram em fonte de inspiração para outras tantas criações, nos diversos campos da 
arte. “Correio Feminino” é, no entanto, uma coletânea de textos extraídos de suplementos 
femininos para os quais escreveu durante as décadas de 1950/60, voltados para temáticas 
direcionadas ao universo feminino – beleza, comportamento, moda, etiqueta. É neste retrato de 
hábitos e tendências da mulher brasileira da época que o Grupo Divinadança foi buscar material 
para investigar aspectos da natureza feminina e compor sua dança.
O elenco do grupo é formado por cinco jovens bailarinas que surpreendem pelas qualidades 
interpretativas e pela naturalidade com que se comportam em cena. Percebe-se que foram muito 
bem formadas e orientadas técnica e artisticamente. Compartilham a assinatura da peça 
coreográfica com Ray Costa e Andrea Pivatto, ficando a direção artística a cargo desta última.
O palco encontra-se inicialmente despovoado, apenas infere-se a presença humana por meio de cinco focos de luz que margeiam o espaço cênico e dentro dos quais encontram-se dispostos roupas e objetos. A música “Coisas de Mulher”, interpretada por Dolores Duran, aparece como primeiro signo linguístico: traça de imediato a conexão com a temática do feminino e e situa o acontecimento cênico no tempo-espaço. A partir daí, uma série de outras referências buscam materializar o universo íntimo e confidencial das intérpretes: cartas, máquinas de datilografar, vestimentas, cores, textos, sonoridades, frascos de perfume e até um notebook. 
Nota-se, no entanto, que muitos destes elementos, sobretudo os objetos cênicos, assumem função dramatúrgica quase que exclusivamente ilustrativa, resultando em lugares-comuns a respeito do universo investigado e não colaborando de forma mais contundente para o enriquecimento poético da obra. Valeria refletir sobre a real necessidade de utilização de tais suportes; ou se as problemáticas plantadas pelo tema não poderiam ser solucionadas com recursos que o próprio corpo em movimento oferece. Este é, aliás, um movimento tradutório nem sempre simples de realizar, ainda mais no caso da matéria-prima da dança estar prioritariamente localizada no próprio corpo do bailarino.
Do ponto de vista do tecido coreográfico, pouco se inovou. O material foi elaborado quase que  exclusivamente de codificações corporais às quais a dança contemporânea tem recorrido com frequência e que já se transformaram em padrões reconhecíveis de conduta espaço-temporal. 
Caberia especular se o conteúdo temático se mostra adequado ao nível de amadurecimento criativo das intérpretes; ou em que medida os procedimentos criativos  e compositivos necessitariam ser alargados e diversificados a fim de gerar respostas renovadas. 
As disposições espaciais e estruturas compositivas produziram tramas e efeitos visuais 
interessantes, consequência de uma bem estudada arquitetura do corpo em movimento no espaço e do domínio, por parte dos coreógrafos-diretores, em manipular estes elementos. Essa depuração não se manteve constante, mas isso não chegou a prejudicar o conjunto da obra.
A despeito de algumas fragilidades, a obra reúne ingredientes potencialmente favoráveis para a impulsão do trabalho do grupo, sobretudo no que diz respeito ao material humano: coreógrafos experientes, intérpretes qualificados. De grupo tão jovem e talentoso, só se pode esperar que futuras experimentações desdobrem-se em ótimas produções.


Por Carlinhos Santos - crítico de extrema competência e generosidade.

Sobre DANS LE NOIR
Propondo um roteiro cinematográfico coreografado, o Divinadança fez de Dan le Noir um exercício de habilidade cênica. A trama que costura a dança do grupo é movida por um crime. E entre claros e escuros da iluminação, vamos construindo esta ação folhetinesca dançada. Há engenhosidade nas construções das sequências coreográficas, obtidas pela competência dos intérpretes em cena.
Ao mesmo tempo em que opta por uma montagem de divertimento, o grupo paulista demonstra, sem pruridos, que a dança pode também ter este viés. Para além da exigência de procedimentos investigativos e experimentais, a dança contemporânea – aqui com claras referências do jazz – reafirma sua capacidade de dialogar com outros gêneros artísticos.
O grupo atua de forma coesa, com alguns momentos de virtuosismo que, ok, o contexto justifica, pois estão em cena mocinhos e bandidos, vilões e heróis. O duo entre dos dois principais intérpretes masculinos, o embate de corpos no jogo da trama noir, reforça a habilidade dos bailarinos em fazer narrativas cênicas dançadas. Assim, o Divinadança presenteia o público com diversão e competência coreográfica.


Festival do Triângulo - 2010

Sobre TEMPO ESCASSO

MIXAGENS DO TEMPO - Por Carlinhos Santos ( crítico e jornalista )


Amparado por Brecht, o grupo Divinadança reorganiza imagens da contemporaneidade na tentativa de afirmar que, sim, é possível mudar muitos comportamentos humanos. No palco do Sabiazinho, ontem, o telão projetava imagens de um ponto de ônibus. Em meio ao trânsito dos transeuntes, um corpo destoa pelo caráter de seus movimentos. Vários deles, em seguida, cruzam o palco. Virtual e real sob camadas, mixagem de imagens tal qual o som remixado. O procedimento voltará a se repetir, desta vez com a filmagem dos corpos dos bailarinos ao vivo, explicitando para o público o tipo de som que cada intérprete ouve ou pode estar ouvindo. O uso das maquininhas individuais de som sugere, na busca de pares, uma irreverência bem humorada aos hábitos contemporâneos: no seu i-Pod ou no meu? Nas movimentações coletivas, nos solos, duos e trios do grupo paulista, além da qualidade coreográfica, amarrações em torno de conceitos como o do coreógrafo DJ, das mixagens do tempo, dos diferentes materiais da dança. Velozes em boa parte do espetáculo, os corpos suavizam, as imagens do telão voltam, as nuances em torno do imagético e do comportamental são enfeixadas. Fade in nas inquietações contemporâneas, no humano desencontrado, nas solidões coletivas. Fade out nestas mesmas angústias, tentando reinverter/reinventar a lógica do tempo, tempo, tempo.


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Você também pode comentar.